Produções textuais

Confira as produções textuais de alguns alunos do Curso de Especialização em Terapia Sistêmica com Indivíduos, Casais e Famílias.

Ansiedade e Pensamento Acelerado na Contemporaneidade

Através da graduação em psicologia, dos atendimentos realizados nos estágios do curso e observações sobre a rotina de grande parte das pessoas, comecei a perceber o quanto a ansiedade e o pensamento acelerado tem feito parte das vivências humanas, foi então que comecei a buscar estudos sobre o assunto.

Inúmeros são os motivos que podem desencadear sintomas de ansiedade e pensamento acelerado, como por exemplo: não saber gerir nossas próprias emoções, pensar em excesso, assumir muitas responsabilidades e atividades, estar exposto diariamente a diversas exigências sociais, entre outros. “Ele dirige carros, empresas, aeronaves, mas é um péssimo gestor dos seus pensamentos e das suas emoções.” Augusto Cury

A Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA) é produzida por uma hiper construção de pensamentos, numa velocidade tão alta que estressa e desgasta o cérebro, ou seja, a SPA impede o desenvolvimento adequado de algumas funções importantes da inteligência, como refletir antes de reagir, expor e não impor ideias, exercer a resiliência e colocar-se no lugar do outro.

A SPA pode influenciar de forma decisiva em como distribuímos nosso tempo, organizamos nossa rotina e definimos o que realmente é importante e nos traz benefícios, tanto no presente quanto no futuro. Saber filtrar estímulos estressantes, fazer a higiene psíquica e reciclar os pensamentos é algo que exige uma boa consciência de nós mesmos.

Você já parou para analisar se apresenta sintomas de ansiedade excessiva, irritabilidade, flutuação de humor, instabilidade emocional, inquietação, intolerância a contrariedades, dificuldade de concentração, esquecimento, fadiga excessiva e cansaço ao despertar?

E ainda, freqüentemente, sente dores de cabeça ou musculares, tem queda de cabelo e sintomas de gastrite? Então, este é um mal que provavelmente atinge mais de 80% dos indivíduos de todas as idades.

Nossa mente tem se transformado num depósito de informação com um exagero de dados registrados, voluntária ou involuntariamente, que acaba por produzir agitação e ansiedade, transformando-se, muitas vezes, em um fenômeno inconsciente e até coletivo.

Sabemos que o que faz bem para um individuo pode não gerar resultados positivos em outro, mas uma boa alternativa para minimizar os prejuízos da ansiedade e do pensamento acelerado pode ser incluir na rotina algumas atividades voltadas para o bem estar como: reservar duas horas por semana para realizar uma atividade física orientada, reservar uma hora por semana para uma atividade ao ar livre, ficar com amigos/família, ler um livro, olhar um filme, cozinhar algo diferente, meditar, etc. Use sua criatividade e desejo de mudar para realizar atividades que aumentem sua sensação de conforto e prazer. Para alguns, isso pode soar trivial, mas acredite, faz um bem enorme para nossa saúde emocional e mental. A vida passa em uma velocidade muito alta, então comece hoje aproveitando cada momento porque nela, não há replay.

Alice Medeiros Chelmicki
Estudante de Psicologia da UFPel
Estagiária de Psicologia no CIFAP

A depressão como mais um desafio acadêmico

A universidade é um ambiente que se caracteriza pela diversidade de ideias, riqueza de pensamentos, inúmeras incertezas e ainda por um “mar” de inovações e curiosidades que visam contribuir para ciência e para a evolução da sociedade. Desde a fundação das primeiras universidades, ter acesso a alguma instituição de ensino foi motivo de grande prestígio e realização, pelo fato do indivíduo adentrar em um meio que irá instigá-lo para o compromisso com o saber teórico e prático.

Junto com a euforia de conhecer esse novo mundo, o jovem depara-se com uma rotina de muitas responsabilidades que o pressiona e o cobra constantemente. Provas, conteúdos, seminários, estágios curriculares e não curriculares, preocupação em corresponder as expectativas da família em relação a notas e desempenho, preocupação com o ingresso no mercado de trabalho e com o inicio da vida adulta fazem parte das situações esperadas que o sujeito terá que enfrentar. A rotina desgastante, natural do meio acadêmico, somada com atividades do dia a dia, como: organização da casa, cuidados com a alimentação, saúde, organização financeira, além da facilidade de acesso a álcool e outras drogas, comuns a qualquer sujeito, pode se tornar ainda mais intensa e desafiadora para os jovens vindos de outras cidades ou regiões, pois terão que descobrir e enfrentar diversas situações sozinhos. A junção desses elementos na vida dos acadêmicos, pode funcionar como gatilho emocional para o surgimento de sentimentos de tristeza, desmotivação, ansiedade, desesperança, solidão e, em alguns casos, até depressão. A OMS (Organização Mundial da Saúde) alerta que cerca de 5% da população brasileira tem depressão, número esse que representa 11,5 milhões de pessoas.

A depressão pode se caracterizar por humor deprimido com perda de interesse e/ou prazer por quase todas as atividades, alterações de apetite e de sono, perda de energia e cansaço, dificuldades de concentração e para tomar decisões, sentimentos de culpa, baixa auto-estima e, em situações graves, até pensamentos de morte. Para que haja um diagnóstico de depressão, é necessário que estes sintomas estejam presentes em um período de, pelo menos, duas semanas. Caso não seja diagnosticada e tratada de maneira adequada, pode trazer prejuízos no trabalho, nas relações familiares e sociais, podendo, em casos extremos, levar o indivíduo a tentar o suicídio.

As notícias sobre suicídio de estudantes universitários no Brasil, independente da região do país onde o caso ocorra, são frequentes. No estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, o universitário Lucas Carmago, de 22 anos, foi encontrado morto na praia do Cassino, após tentativa de suicídio e a informação gerou grande comoção social, principalmente, no meio acadêmico. Alguns atravessadores como o preconceito, vergonha, falta de informação, valores religiosos e morais rígidos podem impedir que um ato dessa natureza seja identificado e evitado. Segundo o Centro de Valorização a Vida – CVV, que é especializado no atendimento de pessoas entre 15 e 29 anos, com propensão ao suicídio, o fenômeno pode ser identificado como a segunda causa de morte entre os jovens. A OMS alerta que no Brasil, são identificados em média 24 casos por dia, totalizando 8 mil casos de suicídio por ano.

Criar mais espaços para a discussão, troca de ideias e o cuidado com a saúde mental dos indivíduos é uma necessidade urgente. Falar sobre depressão e suicídio precisa ser prioridade em todos os âmbitos de nossa sociedade, não somente no meio universitário. Ao identificar alguém com mudanças comportais significativas, falta de atenção, abuso de álcool e/ou drogas ilícitas, sofrimento emocional, tristeza recorrente, é fundamental a indicação rápida de um psicólogo ou psiquiatra. Tanto a terapia psicológica quanto o uso de medicamentos psicotrópicos são indispensáveis para tratar um quadro de sofrimento psíquico.

Alice Medeiros Chelmicki
Estudante de Psicologia da UFPel
Estagiária de Psicologia no CIFAP

Thomaz Szechir Dias
Estudante de Psicologia da UFPel
Estagiário de Psicologia no CIFAP

Suicídio e suas nuances

Frequentemente, recebemos inúmeras informações sobre o combate ao câncer, a prevenção da Aids, como melhorar a forma física, como reduzir os riscos de obesidade, maneiras de se exercitar e evitar o sedentarismo e as doenças cardíacas. Contudo, existe outra causa de morte que ainda é um tabu em nossa sociedade e precisa ser discutida e prevenida, a “decisão de tirar a própria vida”. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que ocorram no Brasil 12 mil suicídios por ano, no mundo são mais de 800 mil, isto é, uma morte por suicídio a cada 40 segundos.

O comportamento suicida está presente quando a pessoa provoca alguma lesão a si mesma, independente da gravidade do ato e, está classificado em três categorias: ideação suicida (pensamentos e planos de como concretizar o ato), tentativa de suicídio e suicídio consumado. O suicídio é um fenômeno complexo que implica, necessariamente, o desejo de morrer e a noção clara do que o ato pode resultar. A interação de diversos âmbitos, como a constituição biológica do indivíduo, a sua história pessoal, eventos circunstanciais e o meio no qual o indivíduo está inserido, irão ajudar no processo de compreensão da situação de vida e do sofrimento que essa pessoa carrega, levando-a em busca da morte.

Existem alguns fatores de risco, identificados por diversos autores, que tornam uma pessoa vulnerável ao ato de suicídio:

Histórico familiar: Se algum familiar cometeu suicídio anteriormente, existe um risco seis vezes maior de que o ato de repita na família.

Existência de transtornos psicológicos: Depressão, transtorno de humor bipolar, esquizofrenia, dependência de álcool e outras drogas, são os transtornos psicológicos mais comumente associados ao suicídio. A situação de risco é agravada quando mais de uma dessas condições estão presentes ao mesmo tempo. Deve-se levar em conta que muitas pessoas com transtornos psicológicos não cometem suicídio, eles são um agravante para o ato quando há o comportamento suicida.

Acontecimentos estressantes: Um acontecimento experimentado pelo indivíduo como vergonhoso, humilhante ou estressante. Fracassar (de verdade ou na imaginação), ser rejeitado, perder o emprego, um rompimento amoroso, ser abusado física, psicológica ou sexualmente, podem colocar o indivíduo no seu limite.

Tentativa se suicídio: Este é o principal fator de risco para que no futuro o ato seja concretizado.

Há também alguns sinais que podem ser observados por familiares ou amigos e que servem de alerta, como: desinteresse por atividades que, anteriormente, o indivíduo realizava normalmente; sentimentos de culpa e inutilidade; cansaço excessivo; dificuldade de concentração e tomada de decisão; irritabilidade; falta de higiene; isolamento social; sofrimento psíquico; o indivíduo sentir e dizer que acha ser um fardo para família e amigos.

O que fazer ao perceber que uma pessoa tem comportamento de risco para suicídio? Você pode conversar abertamente com a pessoa, de forma respeitosa e acolhedora, ser empático e compreensivo pode fazer a diferença. Procure saber como a pessoa está se sentindo respeitando o tempo dela e até onde ela está disposta a se abrir, evite invalidar o que ela sente e diz, escute-a sem julgamentos.

A ajuda profissional é imprescindível, procure um psicólogo ou um psiquiatra. Existe no Brasil o Centro de Valorização da Vida (CVV), fundação sem fins lucrativos que oferece serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio, o trabalho é feito em total sigilo. O contato pode ser feito via telefone no número 141 (disponível 24 horas por dia), pessoalmente (nos 80 postos de atendimento disponíveis pelo Brasil), ou pelo site www.cvv.org.br via chat. Em setembro de 2015, iniciaram-se no Rio Grande do Sul, os atendimentos pelo número 188, que é o primeiro número sem custo de ligação para a prevenção de suicídio. A partir do dia 30 de setembro de 2017, o funcionamento do número 188 iniciará a ampliação da área de cobertura para o restante do país, mais informações podem ser encontradas no site do CVV. Caso esteja precisando de ajuda ou conheça alguém que precise, você pode também entrar em contato com o Centro Integrado de Formação e Aperfeiçoamento Profissional (CIFAP) através do telefone (53) 33076016 ou pelo e-mail cifap@cifap.com.br.

"A melhor forma de entender o suicídio não é estudando o cérebro, e sim, as emoções. As perguntas a fazer são: onde dói? e como posso ajudá-lo?" - Dr. Edwin Schneidman

Psicóloga Carolina Figueiredo Rivero
CRP 07/26261
09/2017

Setembro Amarelo e a conscientização a respeito do suicídio

O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização da luta contra o suicídio, ela é uma extensão do dia 10 de setembro, o dia mundial de combate e prevenção ao suicídio. O índice de vítimas no Brasil é de em média 32 pessoas por dia, superando os números das vítimas de AIDS e de diversos tipos de câncer.

Ainda hoje, o suicídio é visto como um tabu por razões religiosas, culturais e morais. As pessoas por vergonha, medo ou desconhecimento não falam sobre o assunto. Algumas crenças religiosas veem o suicídio como o maior pecado, uma afronta a Deus. Também existem pessoas que acreditam que falar sobre suicídio pode influenciar as pessoas a atentarem contra a própria vida. Na mídia, por exemplo, o assunto costuma chegar de forma superficial e quando se trata de pessoas famosas. Todas essas barreiras encobrem a percepção de que o suicídio é um problema grave e que ainda é menosprezado.

Vivemos em um ritmo acelerado, onde as pessoas se sentem cada vez menos dispostas para escutar de forma acolhedora a dor do outro. Respostas como “suicídio é bobagem” ou “é só para chamar a atenção” são maneiras encontradas pela sociedade para contornar o assunto sem precisar pensar sobre ele. Quem deseja acabar com a própria vida está atravessando um grande sofrimento e a sensação de completa desesperança. Ter sua dor menosprezada quando tenta pedir ajuda só reforça o sentimento de que nada pode ser feito. Em outras palavras, a melhor forma de prevenir o suicídio é exercitar o nosso sentido mais adormecido: a escuta.

A escuta, o maior meio preventivo no combate ao suicídio, precisa contar com uma boa rede social de apoio. Rede social essa que diferente do Facebook, diz respeito às pessoas reais que o indivíduo com ideação suicida pode contar. Essas pessoas podem ser familiares, colegas de trabalho, amigos, etc. São vínculos interpessoais que protegem contra o suicídio. É pensando na prevenção, que a psicoterapia sistêmica exerce um importante papel no combate ao suicídio, tendo a sua abordagem com foco nas relações e vínculos do cliente, casal ou da família em tratamento. É através do exercício da escuta, da compreensão real da dor do indivíduo e do resgate das redes sociais de apoio, que se torna possível entender, combater e por fim evitar algo sofrido como o suicídio.

Psicólogo Rodrigo Felix
CRP 07/26119
09/2017

Abuso sexual na infância

O abuso sexual na infância é um fato real, que sempre existiu em nossa sociedade, e devido a sua alta prevalência, este assunto tem sido cada vez mais discutido. A infância é um período onde o ser humano se desenvolve psiquicamente e fisicamente, por isso pensar em abuso infantil é pensar que as fases do desenvolvimento foram rompidas, violentadas.

As alterações causadas pelo abuso são percebidas comumente, no convívio social, no rendimento escolar, nas escolhas profissionais, nas relações afetivas. São inúmeras as possibilidades de variações do desenvolvimento insatisfatório como, por exemplo, comportamento de esquiva, sentimentos de culpa, dificuldade de confiar no outro, baixa autoestima, agressividade, excesso de erotização, entre outros sintomas.

No Brasil, o Disque 100 e o aplicativo Proteja Brasil são os principais meios de denúncia dos crimes envolvendo crianças e jovens. Segundo um site governamental, apenas em 2015 e 2016, 37 mil casos de denúncias de violência sexual na faixa etária de 0 a 18 anos foram recebidos pelo Disque 100. Apenas em 2016 foram 17,5 mil casos. A maior parte das denúncias é referente aos crimes de abuso sexual (72%) e exploração sexual (20%).

A violência sexual acontece em todos os tipos de classes. Estudos mostram que o abuso sexual se caracteriza por três maneiras distintas: não envolvendo contato físico (abuso verbal); envolvendo contato físico (carícias, sexo oral, sexo anal, manipulação das genitais) e envolvendo violência (estupro).

O abuso sexual infantil é uma situação que envolve vergonha, medo, culpa e desafia questões culturais, pois muitas vezes o abuso acontece dentro do contexto familiar e o silêncio é adotado para que se proteja o núcleo familiar, geralmente, o agressor é um indivíduo com quem a criança mantém uma relação estreita e de confiança.

O abuso sexual impacta fortemente a saúde física e mental da criança e do adolescente, deixando marcas em seu desenvolvimento, com danos que podem persistir por toda vida.

É na infância que acontecem graduais mudanças no comportamento e na aquisição das bases de sua personalidade, por isso, quanto mais cedo houver o descobrimento de algum tipo de abuso, mais probabilidade de aplicar um tratamento adequado que envolva médicos, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais, tendo como meta resolver ou amenizar os danos causados, para que futuramente não surjam problemas mentais ou físicos que sejam mais graves, ou até mesmo irreparáveis.

A intervenção terapêutica exige uma equipe multidisciplinar e deve ser planejada considerando o impacto desta experiência para o desenvolvimento da vítima e da sua família. Desta forma, podemos sugerir diversas modalidades terapêuticas (individualmente, com a participação da família, fonoaudiólogos e sugestões de grupos terapêuticos). A frequência dos atendimentos pode variar de acordo com cada caso e a família deve participar ativamente no processo para a remissão dos sintomas e obter melhores resultados.

A vergonha é o que geralmente barra a procura de tratamento psicológico adequado, porém é preciso transpor este sentimento para que se possa “exorcizar” os traumas do passado.

Psicóloga Bruna Tavares
CRP 07/25196
08/2017